O Sentido do Natal

O texto a seguir foi escrito por Mitch Alves, filho de Dawidh Alves. Eu decidi compartilhar aqui porque ele reflete bastante sobre muitas coisas que penso sobre comemorar o natal. Boa leitura!

Por que escolhi comemorar o Natal?

Se Deus é onipresente, isso nos dá a oportunidade de enxergá-lo em muitos lugares. Talvez em todos. Davi sabia que encontraria Deus mesmo se resolvesse passar a noite no Abismo. Mas nós, evangélicos brasileiros, fomos ensinados a procurar o Diabo em tudo. Até na festa universal ao nascimento de Jesus.

Fomos ensinados a ter medo do Diabo; de que ele, sendo legalista, possa se aproveitar de qualquer deslize da nossa parte para invadir nossas vidas. Como se as Escrituras não tivessem avisado que Satanás não pode sequer tocar aquele que pertence de fato a Deus, e que Cristo em nós é maior que o mundo todo e que qualquer demônio.

Com a melhor das motivações - fugir do mal e até do que possa dar a impressão de ser mau -, começamos a "escarafunchar" as origens das coisas. Queríamos garantir que as trevas não poderiam ter nada contra nós. Como se elas precisassem de "legalidades secretas". Como se a lista dos nossos pecados passados e futuros não fosse mais do que suficiente para o Diabo querer contar direitos legais.

Então, trocamos a confiança no sangue de Jesus, não adotando a perspectiva de que Deus está em todas as coisas - longe de nós essa ideia supostamente esotérica -, mas adotando um compromisso com a busca pelo desempenho impecável baseado em regras sobre coisas materiais: exatamente o que Paulo condena.

No Natal, encontramos toda sorte de "legalidade". Começamos a condenar a celebração da festa no meio evangélico lá para meados dos anos 2000, baseados em argumentos em que eu acreditei, e que hoje prefiro questionar.

"Jesus não nasceu dia 25 de dezembro."

Se meus amigos me fizessem uma festa todos os anos para comemorar meu nascimento, eu não me importaria muito com a data da ocasião. A festa é mais importante, assim como a companhia de quem eu amo e estará presente. Acho que a gente esquece que Jesus é uma pessoa, e do tipo que ama festas.

"Só encaixaram o Natal numa data em que se comemorava o Solstício."

Então pronto, o que se fizer nesse dia está contaminado pelo mal? Eu não posso adorar a Jesus no dia do Solstício? Será que eu posso celebrar Jesus no Dia do Saci ou na Festa de Parintins? Ou esses dias estão maculados pelo paganismo de tal maneira que qualquer celebração cristã na mesma data deve ser evitada? Na minha opinião, é uma ótima notícia que uma festa a Jesus substitua uma festa ao Sol, e eu tenho certeza que Jesus sabe fazer diferença entre um pagão celebrando Rá e um filho de Deus celebrando seu Salvador sem a ajuda de um calendário.

"Não é uma celebração a Jesus, mas uma data comercial"

Então por que será que, mesmo em uma geração ímpia como a nossa, as músicas que tocam em todas as lojas mencionam o nascimento de Jesus com todas as letras? Quem está simbolizado nos presépios - Jesus ou o comércio? Por muitas décadas, o mês de dezembro foi, para a comunidade evangélica brasileira, uma oportunidade de não apenas celebrar, mas de proclamar Cristo, coisa que tem diminuído por causa da nossa "caça às bruxas".

"A festa é para nós, que trocamos os presentes, e não para Jesus."

Certo. Por que a gente deveria criar um portal rumo à dimensão onde Cristo mora e levar presentes diretamente a Ele? Eu imagino que seria difícil Dele se impressionar com qualquer coisa que levássemos, se isso fosse possível. Mas Ele mesmo disse que se impressiona quando alguém assume um lugar de serviço ao próximo. E que Ele se sente presenteado quando presenteamos os outros, seja com uma visita, com roupas, com comida ou um copo de água. Parece que esquecemos que a prática cristã é provada não somente pelo modo como me relaciono secretamente com Deus, mas também pelo modo como trato meu próximo, como ensinou João e o próprio Jesus.

"Mas a festa está cercada de símbolos pagãos."

Se a sua consciência, como diria Paulo, condenaria você pelo uso desses símbolos, simplesmente não faça uso deles. Mas, também como Paulo diria, não se aproveite disso para condenar quem faz uso deles. E vamos combinar: quando é que não estamos cercados de símbolos pagãos? Eles estão nos rótulos dos nossos cereais matinais, nas roupas estampadas que vestimos para ir aos cultos, e nas fachadas das empresas onde trabalhamos. Às vezes nem sabemos que estão ali, tão perto. Se símbolos pagãos pudessem tanto contra os filhos da luz quanto o legalismo supõe, estaríamos em apuros o ano todo, não apenas no Natal.

Eu voltei a comemorar o Natal. Não vou condenar quem acredita que um cristão não deve fazê-lo, e acredito que a Bíblia pede recíproca. Mas eu quero presentear quem eu amo. Eu quero que as rádios seculares e os coros dos batistas e presbiterianos cantem de Jesus pro mundo todo, pelo menos em dezembro. Eu quero que o espírito solidário das pessoas desabroche, mesmo que desse jeito forçado, ao menos por um mês, porque esse esforço por uma cortesia que não é natural é muito mais honroso do que esforço nenhum. Eu quero saber que, na Ceia, eu me lembro do Jesus adulto que morreu, mas que, no Natal, lembro do Jesus Deus que virou um bebê para passar pela experiência humana e me entender. Eu quero saber que o que eu faço para me divertir e para alegrar quem amo numa tradição anual tem origem no nascimento do Filho de Deus, e que Ele e eu sabemos disso, mesmo que o mundo inteiro não entenda. Eu voltei a comemorar o Natal porque Jesus e eu merecemos.

Mitch Alves

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